NO CALOR DA HORA, FEITO DE IMPROVISO E ALEGRIA - Meu nome é Johni

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NO CALOR DA HORA, FEITO DE IMPROVISO E ALEGRIA

NO CALOR DA HORA, FEITO DE IMPROVISO E ALEGRIA

Havia um texto escrito, que resolvi apagar. Este é outro, feito meio de improviso.

            O texto que apaguei era denso, pesado. Quatro páginas inteiras de um coração em desespero. Este é leve. Ventilado. Há uma esperança, antes não sei onde exilada, cantando novamente dentro do peito.

            O texto que não vou publicar era frio, carente de pulsação. Estudo de causas e consequências. Crítica do que temos sido, do que somos e do que apontávamos querer ser. Este é quente, celebração.

            O outro, o texto que vocês não vão ler, tinha a cara sisuda. Este sorri e abraça.

            Quando escrevi o primeiro texto, aquele que não mais existe, quis lançar um apelo. Quase um manifesto. Agora, quero fazer carnaval. Você dança?

            Antes, cada linha escrita no texto que já não há estava contaminada pelos rastros cinzentos de tiros e granadas, por armas em punho e ordens para deitar no chão.Por mentiras e frases racistas. Porque resta em mim algo que jamais posso perder: a capacidade de me indignar diante do erro e do absurdo; do abjeto e do horror. Daquilo o que me humilha porque é a minha falha, o meu fracasso. E também o seu.

            Neste, há um afeto de alegria porque, sim, “é hora de baixar as armas que jamais deveriam ser empunhadas. Armas matam. E nós escolhemos a vida”. E porque ainda resta em mim algo que jamais posso perder: essa força de ser festa quando o outro é amor em mim.

            Não que nomes feios e tristes tenham ficado para sempre esquecidos no texto que não virá. Os asseclas da dor, os partidários da morte, não deixarão de ser presença nas memórias que ainda se vão tecer. Têm assento nas cenas que virão. E são muitos. Mais do que já eram. E sua disposição para a barbárie, nós a conhecemos bem.

            Mas, neste texto, somos nós, e não eles, que estamos aqui. E nós somos de outra cepa. Nós somos aquele que “mataram / e não morreu / o que dança sobre os cactos / e a pedra bruta / – [nós somos] a luta. / o que há sido entregue aos urubus / e de blues / em / blues / endominga as quartas-feiras. / – [nós somos] a luz / sobre a sujeira”, como bem o diz o poeta Salgado Maranhão. E esta alegria reavida, esta janela reaberta para que a vida possa circular primaveras, é nosso direito e é nosso dever festejar. Porque,“no que depender de nós, não faltará amor neste país”.

            O outro texto era sobre este não-lugar que precisávamos, urgentemente, deixar de ser. Este, sobre a possibilidade de enfim voltarmos a ser um país. E de sonhá-lo como um chão onde “o amor prevaleça sobre o ódio, a verdade vença a mentira, e a esperança seja maior que o medo”.

            O texto anterior, já excluído da lixeira de meu notebook, apenas divisava um horizonte plúmbeo, fechado. Aquele abafamento terrível que é a iminência de uma tempestade bíblica.

Este tem o céu irisado e uma leve brisa de mar. Você vê? Você sente?

Porque enfim respiramos, não é?

E porque “o Brasil que iremos construir a partir de 1º de janeiro não interessa apenas ao povo brasileiro, mas a todas as pessoas que trabalham pela paz, a solidariedade e a fraternidade em qualquer parte do mundo”.

            A LUTA CONTINUA. JOHNI VIVE!

Imagem:   reprodução da internet

31/10/2022 | Autor: Comunidade Johni Raoni 

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